quarta-feira, 4 de abril de 2012

Racismo no Esporte


O programa Esporte Espetacular exibido no domingo (25/03) trouxe uma matéria sobre racismo no esporte. Atletas de diferentes modalidades foram reunidos e o que havia de comum entre todas essas pessoas era o fato de terem sofrido ofensas racistas vindas das arquibancadas. A reportagem tinha embasamento histórico e alguns dados interessantes, como o primeiro clube de futebol na história a aceitar negros, a supremacia de atletas negros no futebol, no basquete e no atletismo.
Nos últimos anos, o mundo vem sendo assombrado por manifestações nazi-fascistas, recorrentemente se têm notícias sobre atentados terroristas, a volta dos grupos skinheads e o crescimento da extrema-direita ultranacionalista por todo o Velho Continente. Em terras brasileiras, constata-se que o preconceito é de marca, e não de origem, como dizia Oracy Nogueira em seu ensaio “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem”, sugestão de um “quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil” – por aqui se discrimina a cor da pele, o formato do nariz e o tipo de cabelo. Devido à miscigenação, as pessoas com a pele mais clara, mesmo tendo ascendência negra, costumam ter um tratamento diferenciado.
O esporte é um reprodutor das relações sociais e a Europa é o berço das teorias racialistas, que sempre exaltaram a supremacia da raça branca e o arianismo. Na Olimpíada de 1936, o atleta norte- americano Jesse Owens não foi cumprimentado por Adolf Hitler após ter ganhado quatro medalhas de ouro no atletismo, assim como nunca recebeu um telegrama sequer de Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos naquela época. Esse é um episódio marcante na história esportiva mundial.

Ser branco é considerado um diferencial
Nossos jogadores de futebol sempre sonham em jogar na Europa a fim de buscar independência financeira. O ex-lateral esquerdo Roberto Carlos deixou o Esporte Clube Corinthians sob a alegação de que estavam ameaçando sua família e tal fator foi preponderante para a sua volta ao futebol europeu, onde é constantemente alvo de manifestações racista nos estádios. Será que o jogador desconhece tais fatores? Manifestação racista não é nenhuma novidade para quem é estrangeiro e está radicado na Europa.
A perplexidade fica por conta do tratamento superficial dado pela mídia esportiva a esta questão, que é de fundamental importância. Vale salientar que a emissora onde a matéria foi apresentada é a mesma que levou mais de quarenta anos para colocar protagonistas negros em suas novelas no horário nobre. A primeira versão da obra adaptada do autor Jorge Amado – Gabriela Cravo e Canela – não teve uma atriz negra como protagonista; a segunda versão, que ainda será exibida, também não terá uma atriz negra como protagonista, o que contraria a descrição feita pelo autor em seu próprio livro. O Clube de Regatas Vasco da Gama não promoveu atletas negros em seu elenco por apoiar a diversidade étnica, e sim, porque naquele momento os jogadores negros já começavam a se destacar no cenário futebolístico. Seria muito interessante ver uma matéria que trouxesse à tona o que sente o branco quando ofende, discrimina ou segrega o negro, ou o que o leva a ter esse tipo de comportamento.
Na necessidade de serem aceitos, alguns negros adotam o ideal de brancura como ideal de ego. O racismo se dá por meio da repressão ou da persuasão. O sujeito negro deseja, inveja e projeta um futuro identificatório que é antagônico em relação à realidade de seu corpo e de sua história étnica e pessoal. Ao longo da história, o homem branco pilhou, colonizou, torturou, escravizou, matou e saqueou as outras raças, mas ser branco é considerado um diferencial.
O atleta negro não deveria ficar ofendido quando é chamado de “macaco”, pois a história nos mostra que humanos anatomicamente modernos têm por volta de 200.000 anos e estima-se que pelos menos 130.000 anos tenham sido vividos na África – é o que determina a origem do elo perdido –, ou seja, todos os antropoides habitantes do planeta descendem de “macacos”. A pluralidade é possível, a miscigenação, a mistura étnica. Porém, é preciso entender que antes de termos cor, somos todos pares.