segunda-feira, 25 de julho de 2011

A despedida da Seleção


Foi triste ver o adeus da seleção brasileira nas quartas de final da Copa América. Em sua melhor apresentação durante a competição, o Brasil foi eliminado nos pênaltis pela seleção do Paraguai. Não quero me ater a questões técnicas ou táticas – isso é melhor deixarmos aos “professores”, que há muito deixaram de ser técnicos e agora ostentam o cargo de manager ou “gerente de futebol”.
Está mais do que claro que o problema da seleção não está dentro de campo. Vitórias e derrotas são inerentes a qualquer esporte. A imprensa esportiva se comporta de forma amadora e esse é um dos reflexos do monopólio e da centralização da informação. Os jogadores parecem ser obrigados a falar com repórteres ávidos por uma entrevista exclusiva; essa imprensa esportiva que passa a mão na cabeça quando o comportamento de algum deles foge ao padrão dizendo que são apenas garotos; a mão que afaga e exalta para logo em seguida cobrar com veemência uma postura adulta diante da derrota, concedendo entrevistas exclusivas à beira do campo mesmo que a hora não seja a mais propícia.
Michel Foucault, em sua obra Microfísica do Poder, descreve como os mecanismos do poder são exercidos fora, abaixo e ao lado do aparelho do Estado. Assim como nos mostra a relação de poder e saber nas sociedades modernas com o objetivo de produzir “verdades” cujo interesse essencial é a dominação do homem através de práticas políticas e econômicas da sociedade capitalista. As relações vividas no macrocosmo serão reproduzidas no microcosmo, o problema é estrutural e começa na cúpula da CBF, que volta e meia aparece no noticiário policial e não mais somente no noticiário esportivo, com seu presidente acusado de corrupção, dando entrevistas descabidas, demonstrando um poder incomensurável e se colocando acima do bem ou do mal – compra de terrenos em disputa judicial e até mesmo venda de votos para países que desejam sedia uma Copa do Mundo.

A gente não quer só comida
A seleção já não é mais o lugar para os melhores, as “feras” já não dominam mais o cenário que agora é usado apenas como balcão de negócios para dirigentes e clubes que “jogam” de acordo com a determinação do poderoso chefão, que ao mesmo tempo é escravo dos seus confederados, pois sem os seus votos o monopólio não se sustenta. Esse é o reflexo do mundo globalizado onde as relações são permeadas pelo capital, as regras ditadas pela indústria cultural e o importante é a audiência gerada para quem detém a exclusividade da transmissão de jogos e campeonatos – e o lucro exorbitante obtido pela CBF.
Estamos constatando o fim do futebol arte. Há mais ou menos vinte anos observamos, deitados em berço esplêndido, o nascimento do futebol de negócio, do futebol do marketing, do futebol racional, dos jogadores celebridades, mas esses são o elo mais fraco da corrente. Está na hora de mudar, a renovação não dever ser apenas dentro das quatro linhas, devemos renovar a estrutura inteira, Qual é a responsabilidade social da CBF? Para onde vai toda a grana arrecadada ao longo desses anos? Por que os clubes definham a cada dia? Quem regulamenta a saída de jovens jogadores do país? Como sediar uma Copa do Mundo e Olimpíadas se a educação, a saúde está à míngua? A opinião pública, as autoridades no assunto deveriam se manifestar de forma séria a respeito dessas questões que ficam no ar sem respostas, assim como tantas outras. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e, acima de tudo, arte.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma entrevista com pose de rei


O poderoso chefão do futebol brasileiro, excelentíssimo senhor presidente Ricardo Teixeira, deu uma entrevista polêmica à revista Piauí. Como se diz popularmente rasgou o verbo, disse uma série de impropérios, porém não disse nada que uma pessoa com o mínimo de discernimento político e futebolístico já não tenha questionado. Assuntos como: a relação com o maior conglomerado de comunicação do país, as denúncias de corrupção, o acúmulo das funções de presidente do comitê organizador da Copa do Mundo e da CBF e até sobre a Copa do Mundo de 2014.
Teixeira posou de rei, disse que manda e desmanda no futebol. Frases como: “Meu amor, já falaram tudo de mim: que eu trouxe contrabando em avião da seleção, a CPI da Nike e a do futebol, que tem sacanagem na Copa de 2014. É tudo da mesma patota, UOL, FolhaLanceESPN, que fica repetindo as mesmas merdas.” “Caguei montão [para as denúncias da imprensa]. O neguinho do Harlem olha para o carrão do branco e fala: `Quero igual. ´ O negro não quer que o branco se foda e perca o carro. Mas no Brasil não é assim. É essa coisa de quinta categoria.” “Quanto mais tomo pau da Record, fico com mais crédito com a Globo.” “Só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional.”.
Tais declarações caíram feito uma bomba na mídia esportiva a Rede Record dedicou mais de vinte minutos da sua revista eletrônica semanal, esmiuçando a entrevista e aproveitando para acirrar a sua guerra pela audiência contra a Rede Globo.
“Galinhas mortas”
Nem se pode dizer que a máscara de Ricardo Teixeira caiu, pois não é novidade para ninguém o que está sendo questionado e nem as tais declarações, assim como não é estranho que jornalistas tão críticos como Renato Maurício Prado e Fernando Calazans, não digam nada sobre o assunto em suas colunas no jornal impresso. Afinal de contas a regra é clara: “Manda quem pode e obedece quem tem juízo.” Como costumam dizer os técnicos com seu mais novo motivo para explicar as derrotas para os times de menor expressão, “não existem mais bobos no futebol”. Peço licença aos “professores” para dizer o mesmo, não queiram nos fazer de “bobos”, ninguém acredita que a CBF tenha se enganado ao adquirir um terreno por 26 milhões de Reais na Barra da Tijuca, que está em disputa judicial pela posse com uma construtora paulista, que os bens adquiridos e a vida portentosa correspondam ao salário por ele recebido, assim como ninguém acredita no enriquecimento instantâneo de políticos, algo que já acontece há décadas no país, mas que retoma as principais manchetes devido aos últimos acontecimentos.
A Rede Record deveria deixar de lado o “denuncismo”. Essa briguinha particular com a Rede Globo não leva nada. A função do jornalismo não é a de caçar as bruxas ou eleger vilões. É necessário aprofundar as questões, jogar luz no assunto mobilizando a opinião pública e, assim, produzir massa crítica para que se fundamente questionamento. É estranho ver o Paulo Henrique Amorim “cair de pau” no Globo. Será que no período em que esteve do outro lado ele não sabia a dinâmica e do funcionamento de sua antiga casa? Todos sabem que o ideal de ego da Rede Record é se tornar a nova Vênus Platinada da comunicação. Não existe diferença entre as duas programações, portanto fica parecendo choro de perdedor, de quem quer se apresentar como uma vítima preterida pelo sistema.
Até o grande Romário, que foi artilheiro e que nunca foi ingênuo – esteve em Zurique naquele trem da alegria que foi “representar” o Brasil dentro da sede da Fifa, no dia da escolha da sede da Copa 2014, e agora deputado federal – disse que se encontra estupefato, pois percebeu que essa Copa do Mundo não será a melhor e nem a maior de todos os tempos, como ele havia dito anteriormente. Será que o “Peixe” realmente acreditou nessa possibilidade?
Políticos, grandes conglomerados de comunicação e dirigentes de futebol, por favor, não nos façam de “galinhas mortas.”.